domingo, 30 de julho de 2023

Meu pai, meu papanungai



Minha referência de amor. Minha referência de tranquilidade e de forma de enxergar a vida. A conexão que a gente tinha era tão incrível que muito do que eu sou hoje, veio dele. Ele era meu “papanungai”, e eu a “brutchununguinha” dele.

Sempre foi meu pilar, meu porto seguro. Além de um acadêmico que deixou um legado incrível e marcou a vida de muitos dos seus alunos.

Um pai que educou uma prole honesta, de quatro filhos. Acho que ele teria tido mais até. Amava criança e elas amavam ele. Sempre tinha uma piada, um doce, uma charada ou uma brincadeira inusitada.
Foi o pior pescador que eu já conheci nessa vida e o pior motorista também. Sério, não deveriam deixar meu pai ter tirado carteira!

Ele via beleza nas pequenas coisas, se encantava com o sutil e mergulhava com total atenção no que quer que tivesse fazendo. Sabia bem o que era mindfullness muito antes da moda pegar. Era sábio, meu velho.
No cinema eu tinha vergonha dele. Na hora que todo mundo estava rindo, meu pai ficava estático. E quando estava aquele silêncio completo, na cena mais inusitada, ele rolava de rir. Gente, ele quase caía da cadeira, que vergonha!

No ônibus ou no trem, sempre cedia o lugar. Ele era de uma gentileza sem tamanho, que fazia mais bem pra ele mesmo do que para quem ele atendia.

Inventava músicas para tudo. Para a hora de comer, de tomar banho, de passear, de dormir. Musicava o medo dos filhos e transformava lobo em bolo em dois tempos. Nossa, como eu sinto falta disso.
Era químico, mas amava instrumentos, sendo a flauta doce a grande escolhida. Meu pai era doce.
Tinha uma oficina completa no sítio, onde ele fazia desde móveis, peças de xadrez (jogo que, por sinal, ele amava), até onde se aventurava a consertar os carros velhos e caquéticos que durante muito anos ele teve. Ah! E que eram apelidados carinhosamente sempre, com nomes de gente.

Era de uma sensibilidade incrível e hoje me lembro com um saudosismo enorme dele ouvindo música clássica pela casa em volume ensurdecedor, gesticulando como um maestro e vibrando com a nona. Ele realmente vibrava.
Era um idealista nato. A (quase) inocência dele era muito bonita. Via Deus como a natureza (como eu vejo), sempre criou galinhas e construiu uma secadora de bananas enorme, de onde saíam as melhores bananas passas do mundo!

Nunca tive resposta para o porquê dele ter ido embora antes da hora. Ele foi embora antes da (minha) hora...

Mas aprendi a enxergar sua ida com o mesmo otimismo que ele enxergava a vida. Como sou grata por tudo que vivi, que senti, que construí ao lado dele. Feliz de quem conheceu Reinaldo. Hoje tem festa no céu pela data do seu aniversário.

Brindarei por você daqui, eu pai, meu papanungai.



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